Tarântula, de Bob Dylan

Obra foi escrita pelo cantor americano no ano de 1966 (Foto: Getty Images)

O próprio Bob Dylan diz que tudo em sua obra que não puder ser cantado ou que for longo demais para ser um poema, é romance. Apenas uma definição como esta pode ajudar a enquadrar seu primeiro livro, na referida categoria uma vez que Tarântula, trabalho do cantor, compositor e poeta, não tem exatamente um formato definido. Editado no Brasil pela primeira vez em 1986 e relançado agora impulsionado pelo prêmio Nobel de literatura recebido pelo artista, o primeiro livro de Dylan é um brilhante conjunto de crônicas, prosa, versos e situações cotidianas pintadas sob as cores de um surrealismo repleto de sarcasmo, crítica e poesia. Frases muitas vezes aparentemente sem sentido e desconexas carregam por meio de uma escrita ácida uma visão crítica e ao mesmo tempo bem-humorada de seu país e seus habitantes (“o senador vestido que nem ovelha austríaca. parando prum café & insultando o rábula”).

Embora Tarântula não seja música, suas linhas, seus capítulos, suas crônicas são extremamente musicais seja pelas menções a clássicos de sua discografia (“tropeça para a luz aqui abraão… e que tal esse teu patrão? & não me venha com essa que você só cumpre ordens”) ou pelo ritmo que consegue proporcionar com aliterações, explorações fonéticas (“broa betty, ébano diabrete ba-ba-blam, ba-ba-blam! bandida, teve um bebê ba-ba-blam! e ponha na roda ba-ba-blam, ba-ba-blam! queime o cara com o café ba-ba-blam…”), sequências de vírgulas ou barras e períodos curtos (“… a boa e velha debie, ela aparece & ela & dale & eles começam a morar nos jornais & jesus quem é que pode culpá-los & Amém & oh deus, & como as paradas não precisam da tua grana baby…”).

A obra de Dylan, escrita no auge de seu sucesso e em um momento de transição artística no qual expandia suas possibilidades musicais com o uso de instrumentos elétricos, é exatamente o reflexo de uma mente brilhante em efervescência explorando o máximo de sua capacidade. Não sei se hoje, do auto de sua experiência e maturidade, Dylan escreveria Tarântula da mesma forma, tão descompromissadamente, tão impetuosamente, como que o fizera lá em 1966, mas parece-me que se, por ventura, a voz da razão viesse a intervir hoje em dia nas linhas poderosas com as quais temos o privilégio de nos depararmos neste livro, ele perderia um pouco de seu encanto uma vez que grande parte do que torna a obra tão especial e valiosa é exatamente essa juvenilidade, essa pureza, sua irreverência e subversão.

Tarântula é Dylan na melhor forma desconstruindo o sonho americano, traçando um retrato da decadência da América, e isso, note-se, no final dos anos 60. As pessoas, seus medos, seus anseios, suas esperanças, seus erros, seus defeitos, colocados pelo artista diante de uma espécie de espelho de Dali, no qual o reflexo pode ser visto mas não da forma que se está acostumado a ver. O que impressiona é quando notamos que muitas vezes essa distorção da imagem é exatamente o que nos permite ver as coisas como realmente são. Mas é este é o trabalho do poeta, não? É este é o trabalho do artista.

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